CCV_Rodrigues
31-03-2013, 08:02 AM
Ex-traficante, cinegrafista do AfroReggae se reinventa como modelo
http://oglobo.globo.com/in/7989678-a0d-b79/FT247A/2013-600106981-2013032507439.jpg_20130325.jpg
Em novembro de 2010, no dia da ocupao do Complexo do Alemo, Diego Raimundo Silva dos Santos, conhecido como Mister M, que trabalhava com o trfico, decidiu se entregar à polcia a pedido da me e do irmo, que so evanglicos. Na rendio, ele usava uma camiseta da Reserva com o smbolo do pica-pau, foto que estampou a capa de jornais e sites. Na sede do AfroReggae, onde hoje trabalha como cinegrafista, ele quer esquecer os nove meses de cadeia, que amargou nas penitencirias de Bangu 1 e Bangu 2, e investir na carreira de modelo que comeou, ano passado, na grife de Rony Meisler. E nega ter sido traficante, apesar de ter trabalhado com o brao direito do trfico.
— Nunca fui traficante nem usei drogas. Eu era o brao direito do chefe do trfico no Alemo — conta Diego, que tem 27 anos e nove irmos que no foram para o desvio.
Na sede da entidade, de onde se descortina parte de Santa Teresa, Diego conta ter nascido do outro lado da Praia de Ramos, onde morou at os 11 anos, e depois foi para o Complexo do Alemo.
— Minha me dona de uma cooperativa de vans, e meu pai no sei o que faz. Ele aparecia e sumia. Tipo uns dez anos, desapareceu e no voltou mais.
Quando comeou na vida bandida, Diego tinha 16 anos. A maioria dos amigos escolheu esse caminho, e ele acabou indo atrs. No comeo, ganhava pouco, com o tempo foi ganhando muito dinheiro.
— Minha arma era um fuzil. Primeiro aprendi o bsico, destravar e apertar o gatilho, depois fui aprendendo o resto. Tinha uma mata l para onde a gente ia para ficar atirando. Se eu j matei algum? Nos confrontos, eu atirava, mas, se matei, no sei. Hoje vejo que joguei minha infância fora — conta Diego, que casado e tem duas filhas: Maria Clara, de 5 anos, e Ana Jlia, de 3.
De incio, desconfiana
O amigo de infância Juscelino Vitorino at que tentou resgatar Diego dessa vida. Ele fora acolhido pelo AfroReggae um ano antes de Diego.
— Eu sou suspeito para falar, a gente tem uma relao de irmo, vivemos juntos aquela loucura, mas tnhamos certeza de que um dia amos sair daquela vida. S que Diego naquela poca no acreditava muito. Hoje vivemos outra realidade, no existe mais medo, no existem mais armas — diz Juscelino, que hoje mora em Santa Teresa com o amigo.
Quando recebeu a proposta de ajuda de Jos Junior, lder do AfroReggae, Diego ficou desconfiado.
— Eu no entendia por que uma pessoa que no me conhecia queria me ajudar, mas hoje ele um pai para mim — confessa Diego, que tem as costas “fechadas” com uma tatuagem do rapper americano 50 Cent.
Junior diz que sempre gostou de Diego, a quem conhece desde que “ele era bandido”.
— Sempre o “ameacei” dizendo: vou te tirar da boca, me aguarde! Quanto à entrega, soube durante a minha subida ao morro para conversar com os traficantes, a fim de evitar um banho de sangue.
Para Junior, todos que pedem uma chance devem ser ajudados.
— Tem casos em que percebemos que mentira e outros em que esse desejo vem da alma. O Diego sempre me chamou a ateno porque muito talentoso, at para manusear armas. Antes de entrar para o crime, ele era um danarino de valsa e ritmos caribenhos excepcional. Inclusive fez parte de um grupo de dana. Quando se entregou com a camisa da Reserva, eu falei: “Vamos te transformar em modelo e em uma referncia”.
O empresrio dono da Reserva lembra que, no dia em que Diego se entregou com uma camiseta de sua marca, seu telefone tinha vinte chamadas perdidas.
— Comecei a escutar os recados, e todos diziam a mesma coisa: “O traficante t no jornal com a sua camisa, e agora? Voc tem que impedir que essa imagem seja veiculada”. Liguei para o Junior para entender como eu lidaria com essa crise. E a caiu a ficha. Em vez de tentar abafar a associao da imagem da minha marca com um bandido, por que no envolv-la em um projeto de reinsero social, to valioso para nosso pas? O curioso que, quando Ronaldo Fenômeno, Wagner Moura e Ashton Kutcher apareceram nos jornais vestindo Reserva ningum me ligou pra saber o que eu achava.
‘A temporada na cadeia foi difcil’
Conversando com Junior, Rony Meisler disse ter ressalvas à ligao de sua marca com um bandido.
— Foi a que ele me disse que ou eu entendia a importância do AfroReggae para a sociedade ou no tnhamos como realizar qualquer projeto. Ento me aprofundei na causa, fui a Bangu 1 conversar com os cabeas do crime organizado no Rio, conheci as sedes do AfroReggae, e finalmente caiu a ficha de que o pensamento “bandido bom bandido morto” no funciona. A nica soluo a reinsero social, oferecer alternativas para que as pessoas deixem o narcotrfico. Quando entendi isso, comecei a elaborar com o Junior como poderia colaborar. Foi a que veio a ideia do selo Reserva + Ar, uma soluo onde h ganho financeiro para sustentar os projetos socioculturais da instituio, ao mesmo tempo em que ajuda a disseminar a causa de maneira positiva.
Rony diz que est oferecendo produtos de moda que gerem desejo de consumo da clientela.
— O lucro vai para a instituio, e, de quebra, as peas ajudam a disseminar a causa por a. A meu ver, uma maneira muito mais sutil, e que por isso mesmo pode chegar ao corao das pessoas. Estamos usando o poder de transformao da moda para transformar nossa sociedade — explica Rony. — A prxima campanha com o Diego para o selo j est sendo planejada. Vamos editar a linha anualmente e, em agosto, teremos novidades. O lanamento nas lojas fica para setembro.
Entusiasmado, Diego diz que quer fazer faculdade de Cinema. E tambm que aprendeu a lidar com a desconfiana das pessoas que no acreditam na sua volta por cima.
— Senti muito alvio quando me entreguei. A temporada na cadeia foi difcil, fui criado na rua, livre — conta Diego, que est h dois anos no AfroReggae e teve o primeiro catlogo do selo clicado por JR Duran.
Com 1,83m e 78 quilos, ele malha todos os dias, joga futebol americano na Praia de Botafogo e adora macarro.
— Se eu tinha medo? Todo mundo tem, mas tem que saber controlar. Se a pessoa estiver armada no vai sentir muito medo, mas se tiver desarmada... como as pessoas falam: tiro trocado no di.
E admite que gostava de morar no Complexo do Alemo:
— divertido, todo mundo fala com todo mundo. Mas no tem aquela gritaria com mulheres brigando, como na novela “Salve Jorge”.
Fonte: O Globo (http://oglobo.globo.com/rio/ex-traficante-cinegrafista-do-afroreggae-se-reinventa-como-modelo-7988608)
Comentrio do redator: Mata ai uma porrada de gente entra no trfico de drogas e no final vire modelo :D.
http://oglobo.globo.com/in/7989678-a0d-b79/FT247A/2013-600106981-2013032507439.jpg_20130325.jpg
Em novembro de 2010, no dia da ocupao do Complexo do Alemo, Diego Raimundo Silva dos Santos, conhecido como Mister M, que trabalhava com o trfico, decidiu se entregar à polcia a pedido da me e do irmo, que so evanglicos. Na rendio, ele usava uma camiseta da Reserva com o smbolo do pica-pau, foto que estampou a capa de jornais e sites. Na sede do AfroReggae, onde hoje trabalha como cinegrafista, ele quer esquecer os nove meses de cadeia, que amargou nas penitencirias de Bangu 1 e Bangu 2, e investir na carreira de modelo que comeou, ano passado, na grife de Rony Meisler. E nega ter sido traficante, apesar de ter trabalhado com o brao direito do trfico.
— Nunca fui traficante nem usei drogas. Eu era o brao direito do chefe do trfico no Alemo — conta Diego, que tem 27 anos e nove irmos que no foram para o desvio.
Na sede da entidade, de onde se descortina parte de Santa Teresa, Diego conta ter nascido do outro lado da Praia de Ramos, onde morou at os 11 anos, e depois foi para o Complexo do Alemo.
— Minha me dona de uma cooperativa de vans, e meu pai no sei o que faz. Ele aparecia e sumia. Tipo uns dez anos, desapareceu e no voltou mais.
Quando comeou na vida bandida, Diego tinha 16 anos. A maioria dos amigos escolheu esse caminho, e ele acabou indo atrs. No comeo, ganhava pouco, com o tempo foi ganhando muito dinheiro.
— Minha arma era um fuzil. Primeiro aprendi o bsico, destravar e apertar o gatilho, depois fui aprendendo o resto. Tinha uma mata l para onde a gente ia para ficar atirando. Se eu j matei algum? Nos confrontos, eu atirava, mas, se matei, no sei. Hoje vejo que joguei minha infância fora — conta Diego, que casado e tem duas filhas: Maria Clara, de 5 anos, e Ana Jlia, de 3.
De incio, desconfiana
O amigo de infância Juscelino Vitorino at que tentou resgatar Diego dessa vida. Ele fora acolhido pelo AfroReggae um ano antes de Diego.
— Eu sou suspeito para falar, a gente tem uma relao de irmo, vivemos juntos aquela loucura, mas tnhamos certeza de que um dia amos sair daquela vida. S que Diego naquela poca no acreditava muito. Hoje vivemos outra realidade, no existe mais medo, no existem mais armas — diz Juscelino, que hoje mora em Santa Teresa com o amigo.
Quando recebeu a proposta de ajuda de Jos Junior, lder do AfroReggae, Diego ficou desconfiado.
— Eu no entendia por que uma pessoa que no me conhecia queria me ajudar, mas hoje ele um pai para mim — confessa Diego, que tem as costas “fechadas” com uma tatuagem do rapper americano 50 Cent.
Junior diz que sempre gostou de Diego, a quem conhece desde que “ele era bandido”.
— Sempre o “ameacei” dizendo: vou te tirar da boca, me aguarde! Quanto à entrega, soube durante a minha subida ao morro para conversar com os traficantes, a fim de evitar um banho de sangue.
Para Junior, todos que pedem uma chance devem ser ajudados.
— Tem casos em que percebemos que mentira e outros em que esse desejo vem da alma. O Diego sempre me chamou a ateno porque muito talentoso, at para manusear armas. Antes de entrar para o crime, ele era um danarino de valsa e ritmos caribenhos excepcional. Inclusive fez parte de um grupo de dana. Quando se entregou com a camisa da Reserva, eu falei: “Vamos te transformar em modelo e em uma referncia”.
O empresrio dono da Reserva lembra que, no dia em que Diego se entregou com uma camiseta de sua marca, seu telefone tinha vinte chamadas perdidas.
— Comecei a escutar os recados, e todos diziam a mesma coisa: “O traficante t no jornal com a sua camisa, e agora? Voc tem que impedir que essa imagem seja veiculada”. Liguei para o Junior para entender como eu lidaria com essa crise. E a caiu a ficha. Em vez de tentar abafar a associao da imagem da minha marca com um bandido, por que no envolv-la em um projeto de reinsero social, to valioso para nosso pas? O curioso que, quando Ronaldo Fenômeno, Wagner Moura e Ashton Kutcher apareceram nos jornais vestindo Reserva ningum me ligou pra saber o que eu achava.
‘A temporada na cadeia foi difcil’
Conversando com Junior, Rony Meisler disse ter ressalvas à ligao de sua marca com um bandido.
— Foi a que ele me disse que ou eu entendia a importância do AfroReggae para a sociedade ou no tnhamos como realizar qualquer projeto. Ento me aprofundei na causa, fui a Bangu 1 conversar com os cabeas do crime organizado no Rio, conheci as sedes do AfroReggae, e finalmente caiu a ficha de que o pensamento “bandido bom bandido morto” no funciona. A nica soluo a reinsero social, oferecer alternativas para que as pessoas deixem o narcotrfico. Quando entendi isso, comecei a elaborar com o Junior como poderia colaborar. Foi a que veio a ideia do selo Reserva + Ar, uma soluo onde h ganho financeiro para sustentar os projetos socioculturais da instituio, ao mesmo tempo em que ajuda a disseminar a causa de maneira positiva.
Rony diz que est oferecendo produtos de moda que gerem desejo de consumo da clientela.
— O lucro vai para a instituio, e, de quebra, as peas ajudam a disseminar a causa por a. A meu ver, uma maneira muito mais sutil, e que por isso mesmo pode chegar ao corao das pessoas. Estamos usando o poder de transformao da moda para transformar nossa sociedade — explica Rony. — A prxima campanha com o Diego para o selo j est sendo planejada. Vamos editar a linha anualmente e, em agosto, teremos novidades. O lanamento nas lojas fica para setembro.
Entusiasmado, Diego diz que quer fazer faculdade de Cinema. E tambm que aprendeu a lidar com a desconfiana das pessoas que no acreditam na sua volta por cima.
— Senti muito alvio quando me entreguei. A temporada na cadeia foi difcil, fui criado na rua, livre — conta Diego, que est h dois anos no AfroReggae e teve o primeiro catlogo do selo clicado por JR Duran.
Com 1,83m e 78 quilos, ele malha todos os dias, joga futebol americano na Praia de Botafogo e adora macarro.
— Se eu tinha medo? Todo mundo tem, mas tem que saber controlar. Se a pessoa estiver armada no vai sentir muito medo, mas se tiver desarmada... como as pessoas falam: tiro trocado no di.
E admite que gostava de morar no Complexo do Alemo:
— divertido, todo mundo fala com todo mundo. Mas no tem aquela gritaria com mulheres brigando, como na novela “Salve Jorge”.
Fonte: O Globo (http://oglobo.globo.com/rio/ex-traficante-cinegrafista-do-afroreggae-se-reinventa-como-modelo-7988608)
Comentrio do redator: Mata ai uma porrada de gente entra no trfico de drogas e no final vire modelo :D.